JM Cunha Santos

As coisas são tão simples no céu:
Tem sempre uma rosa rubra oferecendo jardim
Sempre uma flor de cactus posando nua para o sol
Sempre um lírio que se espreguiça deitado na tempestade
No céu as feras se beijam e desses beijos nascem anjos que vão construir mais céus
As coisas são tão simples no céu:
Tem sempre um espírito limpando outro espírito
Sempre uma manhã à espera de alguém que entardeceu
Sempre uma noite cobrando pedágio de felicidade
No céu tem sempre um pássaro-poeta faltando ao respeito com a esperança
As coisas são tão simples no céu:
Tem sempre um monte de sorrisos fazendo fila no mesmo rosto
Sempre pardais viajando para buscar esquecimento
Sempre feridas que cicatrizam antes de aparecer
No céu ninguém bate e, se bate, quem bate é que sente a dor
As coisas são tão simples no céu:
Tem sempre uma alma encardida tomando banho de amor
Sempre um único sonho que pode mudar a realidade doente
Sempre alguém chegando para ser outra pessoa
No céu todos os prazeres podem ser sentidos de uma vez só; todas as dores também
Mas eis que este poema só se aplica ao fim das coisas ou ao início do nada: às vezes eu não sou eu
Pois se as coisas são tão simples e tão fáceis no céu
Não é tão simples nem tão fácil ir até lá
Mas o céu é bem ali: dentro do teu coração